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conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

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A era da reprodutibilidade técnica avançada

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

Mirela, Mari, Evandro e Neto estavam ensaiando há semanas. O roteiro era da Mari e do Evandro, e nunca estava fechado. Eles não aceitavam começar a gravar enquanto tudo não estivesse completamente finalizado. Equipe de produção, pós-produção, técnica, tudo definido. Não basta só ter uma super-câmera “D qualquer coisa”, para gravar em HD a beleza de uma pombo cagando em cima de um careca engravatado na Berrini. Tem que ter o som das asas do pombo, tem que ter o barulho da bosta se espatifando na careca lustrosa, dividido em quadros sincronizados com um som angustiante e em ângulos jamais imaginados por Hitchcock. Tem que ter brilho, luz, câmera, ação!

– Vamos fazer um piloto.

– E quem vai editar?

– Eu e a Renatinha.

– Onde? No Movie Maker? Não…

– Ela tá com um canal no You Tube….tudo bem, é sobre moda…..mas são legais, e ela tem mais de mil visualizações em um vídeo já….

– Para com isso…..ela que seja feliz, mas a gente quer fazer uma coisa diferente………..

– Ela disse que topa, é só pôr o nome dela nos créditos…….e ela divulgaria no canal dela também………..a gente faz, se não ficar bom a gente não sobe na net…….

– Tudo bem, mas ainda temos o problema do microfone……só com o da câmera não dá……

– Para de colocar dificuldade em tudo………é só um curta de menos de cinco minutos!……..você dois estão achando o que?………que….que….sei lá……..aqui não é o NetFlix!

– Calma……

– Um monte de gente grava com uma câmera pior que a nossa, sem microfone, edita no Movie Maker, ou nem edita, e faz umas coisas muito legais……..faz quase um mês que a gente esta ensaiando, já temos o figurino, a maquiagem, tudo…….vamos fazer!

– Tudo bem, a gente faz um piloto no próximo ensaio.

Cena 1

Resumo – Dois caras estão numa mesa de bar no meio da noite. O número um é um taxista (Mari) e o número dois (Evandro) é um jornaleiro. Eles estão tomando suco e comendo um pedaço de bolo enquanto conversam. A balconista (Mirela) fica no fundo mascando um chiclete e fumando um cigarro vendo TV.

{Som de copos tilintando, pessoas conversando, barulho de televisão e carros passando de fundo.}

[Câmera em plano médio com os dois sentados na mesa em primeiro plano e a garçonete em segundo plano aparecendo no fundo.]

(Taxista) – “Sei que não temos muita intimidade, mas eu precisava conversar com alguém…….é que…..sei lá……ultimamente eu tenho visto tanta coisa……..me faz pensar……que……sei lá…………essa cidade…..”

(Jornaleiro) – “Acho que estou entendendo o que você quer dizer………um tipo de depressão……..todo mundo é feliz menos eu…….algo assim………”

(Taxista) – “Não sei……..acho que as pesso…”

(Jornaleiro) – “O que você precisa é se divertir cara………..pega umas minas fáceis, toma um porre, faz uma merdas……..aqui é a democracia………curte, se diverte……”

(Taxista) – “Estas foi uma das maiores merdas que eu já ouvi….”

CORTA! CORTA!

– Esta ficando bom……….Mirela, eu preciso que você masque esse chiclete como a Sally Sanders na cena do parque de diversões naquele filme com o John Travolta……você esta no fundo, desfocada, tem que ser bem performático para sair bem………..Mari, seja mais deprimida e menos malandro……..você esta bem Evandro, mas não olha para Mari quando você responde, fala meio de boca cheia, olhando para a direção do barulho da televisão……..você não esta se importando muito com o que ele esta falando……..falem mais alto que não temos mic aqui………vamos continuar da onde parou……..

Cena 1……continuação……ação…….

(Jornaleiro) – “É isso que os homens fazem…….”

(Taxista) – “Esse é o problema………não aguento mais essa sujeira, essa merda de lugar…….essas vagabundas na rua não percebem que são parasitas?……..”

(Jornaleiro) – “Você vive num país livre cara……se você gosta de homem procure um e seja feliz……..

(Taxista) – “Cala essa boca seu animal…..não sei porque estou perdendo meu tempo com você……..”

Fim da Cena 1

– Talvez tenha ficado legal galera……vamos arrumar tudo para a próxima………

Cena 2

Resumo – O taxista (Mari) esta na sala da casa de um vendedor de armas (Mirela). Ele tira uma mala debaixo de uma abertura escondida atrás do sofá e os dois começam a negociar.

[Câmera em plano geral, pegando toda a sala e mostrando toda movimentação dos personagens.]

{Sons de crianças brincando no quintal do vizinho e adultos gritando.}

(Vendedor de armas) – “Eu tenho tudo que você precisa……armas, munição, coletes a prova de bala……..”

(Taxista) – “Eu quero uma Magnum 44 com seis balas……”

(Vendedor de armas) – “Esta aqui esta belezinha……..robusta, pesada…….1,3kg de pura destruição…….o que ela acertar ela derruba……..”

(Taxista) – “Quanto é?”

(Vendedor de armas) – “Um barão e meio…….”

(Taxista) – “Com as balas?”

(Vendedor de armas) – “A primeira é sempre na faixa…….o que você esta pensando em fazer com isso……….”

(Taxista) – “Nada demais……..aqui esta o dinheiro…….”

(Vendedor de armas) – “O Tito disse que você era taxista……..que só queria se proteger……..se seus amigos também quiserem posso vender para eles também………mas nada de falar por telefone, a gente combina e você traz eles aqui……e se alguém me perguntar você nunca me viu……..e é isso que vou falar se alguém perguntar de você……..”

(Taxista) – “Entendi, eu sei como funciona…….”

Fim da cena 2

– Não sei isso esta dando certo. Nessa cena a câmera ficou muito longe de vocês………acho que não esta legal o som……..

– Roda aí na câmera mesmo pra gente ver como ficou………

[Filme rodando]

– O som esta horrível……..parece que é um banheiro…….

– Vamos terminar de gravar……..a Renatinha vai melhorar o som no computador e colocar os efeito……..eu estou achando ótimo……..vou arrumar tudo para a próxima cena………..

Cena 3

Resumo – O taxista (Mari) esta sentado numa cadeira na cozinha escrevendo um bilhete. A arma esta do lado do papel na mesa.

[Câmera em plano americano mostrando o taxista escrevendo o bilhete e a arma. Ele acaba de escrever, coloca a caneta do lado do papel, pega a arma e da um tiro na própria cabeça. A cabeça cai do lado do papel, sangrando, e a câmera vai fechando até focalizar o papel em detalhe.]

{Nenhum som, só o barulho do taxista escrevendo o do tiro.}

(Recado do bilhete) – “Eu não sou viado”

Fim da cena 3

– Adorei!

– Acho que ficou uma merda.

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A conta

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

Eu estou morrendo. Sei que todo mundo está, mas eu tenho enfisema pulmonar. Não consigo mais fumar e minha vida é um inferno por causa disso. Tenho que passar o dia na cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo. Nunca me importei muito com como seriam esses tempos, mas sabia que eles iam chegar. Você desenvolve uma certa consciência depois de passar 30 anos fumando dois maços de cigarro por dia. Sabia o que ia acontecer. Assim como quando aceitei ser governador, sabia no que estava me envolvendo. Quando disputei minha primeira eleição para vereador era porque eu queria me envolver. Não é só fazer política ou filantropia, é um estilo de vida. Tem haver com manter tudo como esta: bom para todo mundo. Nem de longe imaginei que as coisas poderiam se desenvolver desta forma. O que você tem que entender é que sempre fiz o que achei que era certo para manter o nosso estilo de vida. Eu tenho esposa, filhos, netas. Sempre achei que quando este dia chegasse seria o fim de um outro começo. Sei que isso não me absolve dos meus pecados, mas eu estou morrendo de enfisema pulmonar. E todo mundo que esta morrendo merece alguma compaixão. Porque todo mundo fez alguma coisa de bom para alguém um dia no vida, e quando se esta numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo, é isso que tem que ser lembrado.

Quando vi a Fernanda pela primeira vez ela estava começando o estágio na Assembleia Legislativa. Era uma jovem estudante de direito, linda. Os longos, e encaracolados, cabelos morenos, o olhar penetrante, as coxas grossas. O conjunto da obra era hipnotizador. Ninguém conseguia resistir aos seus encantos. Admito que quando convidei ela para assumir um cargo em meu gabinete eu já tinha tudo planejado. Sempre fui daqueles que não faz nada sem ter pensado em tudo. Ela não era a primeira, nem eu. Todo mundo faz assim. Acontece. Eu tenho esposa, filhos, netas. Quando ela aceitou o cargo ela sabia o que estava fazendo. Porque o cargo também incluía um apartamento no centro, com cartão de crédito e carro na garagem. Então, se você aceita tudo isso, você sabe que seu trabalho não será exatamente no escritório. E durante dois anos tudo foi uma maravilha. Nós nos víamos de duas a três vezes por semana. A vida pública exige que algumas coisas sejam realmente privadas. Eu não ia no apartamento dela para não ser visto. Nunca éramos vistos juntos. Se você usa uma aliança no dedo anelar esquerdo, e ocupa um cargo público, você não quer que as pessoas te vejam fazendo o que elas fazem. Elas votam em você exatamente porque elas acham que você não faz como elas fazem. Elas votam em você para poderem continuar fazendo o que elas acham que só elas fazem. Se todo mundo soubesse o que todo mundo fez e faz, o que seria desse mundo? E agora, que estou numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo, agora isso vai ser importante?

O que você tem que entender é que jamais imaginei que aquilo ia terminar como terminou. Eu tenho esposa, filhos, netas. Não teria feito o que fiz se não julgasse que havia extrema necessidade. Era muita coisa que estava em jogo. Todos os meus grandes feitos não podem ser ignorados por um incidente. Eu também construí escolas, creches, hospitais. Toda uma história não pode ser questionada por causa de uma estagiária num momento de devaneio. Não é porque estou numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo, que estou contando tudo isso. É porque a imprensa vai fazer um escarcéu, vai supervalorizar tudo. Eu tenho esposa, filhos, netas. Não vão respeitar elas e elas não merecem isso. Não estou aqui pedindo absolvição, é só que vejam que fiz o que fiz porque precisava manter outras coisas, que eram boas para todos. Pode não ter sido a melhor escolha, mas era a única que eu tinha. Quando ela apareceu grávida, na casa da minha família, vociferando que eu era um monstro, ela mesmo não deu valor a tudo isso. Em tudo que eu representava, em tudo que eu era. Ela não me deu opções. A questão não é quem é a vítima, é como se reage as coisas. Ninguém é santo. O mundo é muito maior que uma pessoa só, e exitem os seus problemas e os do mundo, e perto dos do mundo, o seu sempre vai ser pequeno. Uma coisa que pode parecer pequena para você, pode ser grande para o mundo. Não era só a minha honra que ia ser atingida, era a honra de todo mundo.

Quero deixar claro que antes de matar ela asfixiada, e incinerar o corpo numa pilha de pneus, tentei todos os outros meios ao meu alcance para evitar que as coisas terminassem dessa forma lastimável. Não foi fácil fazer o que fiz. Eu não queria. Eu chorei, pedi, implorei. Mas ela tinha vídeos, fotos, conversas. Eu poderia ter dado tudo que ela jamais imaginou ter. Hoje ela poderia estar vivendo bem em qualquer lugar que quisesse. Tentei garantir, com todas as palavras possíveis, que ela e a criança jamais passariam nenhum tipo de necessidade. Muito ao contrário, viveriam sem nunca terem que se preocupar com dinheiro. Teriam até direito a herança. Eu reconheceria o filho quando deixasse a vida pública. Mas ela queria causar um escândalo. Queria usar uma criança para acabar com tudo. O que ela queria era ver tudo que eu tinha construído destruído. Eu fiz o que qualquer um no meu lugar faria. Eu tive que matar ela asfixiada, e incinerar o corpo numa pilha de pneus, para garantir que tudo continuasse como estava, porque estava bom para todo mundo. Eu tenho esposa, filhos, netas, e estou numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo.

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O aborto

Luciana tinha 14 anos e desconfiava que estava grávida.

Começou a suspeitar de algo errado depois de dois meses sem menstruar, e de sua vó estranhar os enjôos e perguntar sobre sua virgindade. As pesquisas no Google indicavam que as chances de estar esperando um filho eram grandes. Alguns sites anunciavam a notícia de forma mais feliz, outros de maneira mais temerosa. Mas foi um teste de farmácia, no banheiro da escola com a Ana, que deu 93,7% de certeza.

Quando escutou da Paula, um tempo atrás, que agora que ela menstruava podia engravidar, Luciana entendeu que agora podia transar. Por algum motivo também concluiu que só ia engravidar se transasse quando estivesse menstruada, e ela jamais tinha transado menstruada. Um professor de ciências, numa aula de educação sexual, tinha dito uma vez que a camisinha evitava a gravidez, mas ela nunca tinha entendido porque. Que o sexo podia gerar uma gravidez nunca foi um segredo, mas como ele levava a gravidez era outra coisa.

Ela só tinha metido com dois meninos. Seu primo mais velho e seu namorado, uma semana antes. Como quase tudo que ela sabia sobre gravidez vinha de blogs escritos com técnicas de SEO, e conversas no banheiro feminino, concluiu que namorado deveria ser o pai. Com um filho ele não ia mais querer namorar com ela. Sua mãe nunca mais a deixaria sair de casa. Sua vida estava acabada.

Então decidiu que ia fazer o aborto e que ninguém nunca ia poder saber de nada, só suas melhores amigas Ana e Natália.

As três juntas voltaram para a internet para saber como era um aborto.

Descartaram rapidamente as clínicas que apareceram na primeira página da busca. Luciana era menor de idade e nunca tinha imaginado ter tanto dinheiro. Então descobriram que existia uma remédio que provocava o aborto. Depois que ele não era vendido nas farmácias. Em seguida que podiam comprar num grupo do Facebook. Por fim também não teriam como conseguir o dinheiro.

Num segundo momento viram que chás e algumas comidas também provocavam aborto. Mas elas não tinham como fazer o chá, na casa de qualquer uma delas alguém poderia ver. Parecia difícil de conseguir a tal Artemísia-losna e ia ter que tomar durante dias. Depois ia vir muito sangramento. Luciana não conseguiria esconder. Descartaram também.

Na busca desesperada por uma solução imediata chegaram até um site com “dicas do sertão”. Viram que muito antigamente mulheres abortavam enfiando uma agulha de crochê na buceta até expelir o bebê.

Luciana ignorou as advertências do site para que não recorresse aquele método e desatou a chorar. Estava claro para ela que esta era a forma mais fácil de resolver o problema.

Foram pesquisar mais afundo sobre como proceder. Leram que deveriam cutucar o útero com a ponta da agulha ate sentir que ele tinha sido danificado. Viram um vídeo de uma mulher satirizando a situação e imaginaram os movimentos. Tudo parecia fazer muito sentido para elas.

Ana e Natália se mostravam fiéis a amiga. Ajudariam em tudo e choravam copiosamente junto com Luciana. Ela imaginava que ia sair de dentro dela pedaços da criança enquanto ela fazia xixi. Achava que ia doer muito. Estava com muito medo, mas tinha certeza que estava fazendo o que tinha que fazer.

Como se todo mundo já soubesse o que fazer combinaram que Luciana roubaria duas agulhas de crochês de sua avó. Seguindo uma recomendação satírica do vídeo utilizariam óleo de cozinha como lubrificante. Natalia ia pegar na geladeira antes de sair. Todas se encontrariam na casa de Ana e iriam em uma construção abandonada que ficava no mesmo quarteirão. Foi ela também que lembrou de pegar uma toalha.

As três entraram pelo cercado de madeira quebrado e foram até um quarto no piso de cima. Ninguém falava muito e, agora, ninguém sabia muito o que fazer num quarto escuro. Luciana pegou um pano velho que achou e estendeu na frente da janela, que era por onde entrava a luz. Ela sentou com as costas meio apoiada na parede, abaixou a calça, tirou a calcinha, abriu as pernas e esticou a mão com a agulha de crochê na direção de Natália.

Chorando desesperadamente Natália disse que não tinha coragem. Ana tremia tanto e estava tão nervosa que não conseguia falar.

Um pouco trêmula Luciana passou óleo na agulha de crochê e começou a enfiar na buceta. Ela sentiu a ponta da agulha chegar até o limite do colo do útero. Alguma coisa parecia se remoer dentro do seu estômago e ela apenas deslisava o pedaço pontudo de plástico de um lado para o outro.

Natália estava com as mãos cobrindo a boca e o nariz, soluçando e espalhando desespero com o olhar. Ana estava de costas, sentada e encolhida no chão chorando baixinho. Luciana olhou para cima, respirou fundo e começou a estocar a agulha de crochê com força no meio das pernas. Uma, duas, três e ela largou o objeto e começou a rolar no chão, gemendo desesperadamente, em posição fetal e com as mãos na barriga.

Segundos depois o sangue começou a se espalhar pelo pano sujo que Luciana tinha esticado no chão. Num impulso assustado Natália se levantou e saiu correndo. Ana tirou forças do fundo da alma para sentar ao lado da amiga e segurar sua mão. Luciana chorava, tremia e se contorcia sentindo coisas meio sólidas e gosmentas saírem do meio de suas pernas.

Os minutos que se seguiam eram angustiantes. Nenhuma das duas sabia o que fazer ou o que falar. O fluxo de excrementos foi diminuindo, mas Luciana sentia que a dor ia ficando cada vez mais aguda.

Ambas sabiam que tinham que voltar para casa antes que suas ausências fossem questionadas. Luciana começou a se limpar um pouco com a toalha que Ana lhe ofereceu, mas tinha muito sangue. Quando tentou se levantar percebeu que não conseguia firmar as pernas, e precisou se apoiar em Ana para ir até uma torneira nos fundos para se lavar.

Fazendo um esforço descomunal Luciana chegou em casa e conseguiu tomar um banho. Ela achava normal que continuasse a escorrer um pouco de sangue de um furo de agulha. Colocou dois absorventes e uma toalha de rosto no meio das pernas para evitar o risco de alguma coisa vazar. Pegou no armário do banheiro um paracetamol e tomou para a dor. Depois se trancou no quarto escuro e fingiu que estava dormindo para não ter que falar com seus pais, e para tentar esquecer a dor. Antes de dormir pensou que tanta dor não era normal, e que poderia morrer. Se não morresse faria outro teste de farmácia para saber se o aborto deu certo.

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Cachorro no mato

Era uma multidão. Um fluxo aleatório de gente indo para cá e para lá. Bruna vinha andando como quem não quer nada, mas com o ritmo de quem sabe onde quer chegar. Só seguindo o fluxo da sua linha. Quando viu o pato vindo concentrado na tela do celular ela deu o bote. Rápida como uma naja atacando um ratinho branco especialmente para as câmeras da Discovery. A super-câmera ia mostrar em detalhes como o punho dela se dobrava num ângulo perfeito para baixo e depois para cima, retirando com suavidade e segurança o celular da mão do duck. Ela não mudou o ritmo da caminhada, não fez nenhum movimento brusco. Só os músculos do braço se moveram como um chicote. Do bolso e de volta para o bolso, carregada, em milésimos de segundos. Quando o pato atordoado acusou o golpe Bruna já estava pelo menos dez passos longe da confusão. Daí para frente era só não olhar para trás.

Ela entrou num shopping shing-ling e esvaziou os bolsos num balcão. “Quanto tempo faz você roubar isso?” “Foi tudo agora, se você correr para mudar o PIN não vão nem conseguir travar.” “Você boa.” “Me paga.” O chinês, que na verdade é coreano, deu o dinheiro e Bruna colocou as notas no sutiã. Como uma estudante de uma faculdade tradicional qualquer ela caminhava desapercebida pelo formigueiro do centro da cidade.

De repente Bruna sabia que estava sendo observada. Manteve as mãos quietas nos bolsos e continuou a tocada firme. Girou só um pouco a cabeça, como quem quer ver o que esta acontecendo em volta de si, e percebeu que ele estava três passo atrás, do seu lado esquerdo, falando num celular. Quando ela se virou para frente de novo ele tocou seu ombro e se aproximou. Num terceiro movimento um cano frio tocou a sua cintura. “Só vem comigo. É só uma conversa.” Avessa a chamar atenção ela só seguia a direção que o cano apontava.

Os dois entraram num prédio com aspecto de velho, depois numa das salas do sétimo andar. Ele pediu para que Bruna encostasse na parede para ser revistada. “Cuidado com essa mão aí!” Ela falou só por implicância. “É estranho quando é o seu bolso com uma mão que não é a sua?” O capanga abriu a porta de outra sala e mandou ela entrar. Um velho carcamano meio chinês (ou coreano?) estava sentado do outro lado de uma mesa. “Entrar cara Bonnie. Você saber quem ser eu?” “Não.” “Eu ser quem todo mundo que fazer coisa errada alguma aqui ter que pagar. Me entender?” “Não vou mais fazer nada de errado aqui então.” “Vai sim. Vai porque você boa. Vai porque Sr. Antônio ganhando muito dinheiro vendendo o que você entregar ele, e eu ganhar muito dinheiro também. Vai porque eu querer que você vai.” Ela ficou olhando sem saber o que falar. Não precisava ter assistido um filme do Scorsese para entender o que estava acontecendo. “Agora o Sr. Antônio me pagar 20% do que você ganhar, porque ele pagar sua parte mim. Assim nunca precisar nós ver. Entender?” Bruna acenou que sim com a cabeça sem conseguir mais esconder o medo. “Agora poder voltar ao trabalho.” Ela se levantou e saiu.

Indignada ela foi em direção ao cubículo do Sr. Antônio no shopping shing-ling. “No que você me enfiou seu chinês desgraçado?” “Calma. Não nervosa.” “O que você falou para ele seu cretino?” “Que você ser boa. Ele proteção. Você não cadeia.” “Proteção o escambau! Não tenho dono!” “Calma. Não nervosa. Eu paga metade sua parte. Pronto.” “Chinês burro!” Ela voltou para o mundo sem muito destino. Tinha o trabalho do dia no peito e percebia o tempo todo que estava sendo vigiada. Irritada com toda aquela situação ela entrou repentinamente num ônibus sem nem ver a bandeira e saiu dali.

Conseguiu se virar por três dias com o dinheiro que tinha até se entregar a loucura orgânica do calçadão do centro da cidade. No momento em que desceu a ladeira, e avistou a massa desordenada de carne humana atravessando o viaduto, já sabia que estava sendo vigiada. Fez uma primeira coleta de aparelhos e voltou para o box chinês-coreano. “Você não aparecer. Eu ficar preocupado.” “Preocupado porra nenhuma. Quem mais vai querer me extorquir dessa vez?” “Que? Eu não entender você querer dizer. Istoiqui?” “Tá bom, tá bom. Só me dá meu dinheiro. Entender me-dá-dinheiro?” “Sim, sim.”

Ela pegou a grana e voltou para as ruas. Não procurava mais quem há estava seguindo, apenas sabia que eles estavam lá. Então começou a se exibir. Primeiro roubou a carteira de um executivo depois de um encontrão ‘acidental’. “Desculpa” foi tudo que o palerma disse para ela, que respondeu com um sexy “tudo bem” enquanto enfiava a carteira dele no bolso da calça. Mas não conseguia fugir de sua especialidade, as chicotadas. Viu o cordeirinho vindo de longe. Digitando compulsivamente. Levantava a cabeça sem o menor foco. Ajustou a direção para passar ao lado dele. Calculou a rota de fuga por detrás da presa. Colocou as mãos no bolso do moletom e foi para cima com a confiança de uma leoa que ataca um cervo em campo aberto. Quando ela estalou o braço de volta com o celular na mão sentiu um empurrão por trás. “Sua larapia maldita!” Não conseguiu distinguir as palavras enquanto caia esbarrando nas pessoas e abrindo um círculo no meio do povo. O dono do celular virou lobo e foi para cima dela uivando. Socos, chutes e pontapés aos gritos de “mata! mata! mata!” da torcida. Toda encolhida no chão ela foi resgatada por duas mãos e arrastada para dentro de um carro. Bruna tremia e chorava descontroladamente. Só começou a se sentir mais segura quando percebeu que era o capanga do velho carcamano meio chinês que dirigia o carro.

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Ratos e ninhos de amor

Seu AlceuE ele suava como um porco e fedia azedo. Carregava uma pasta e um lenço branco embabado naquele líquido fétido que escorria por todo seu rosto e ensopava aquela barba nojenta. As pessoas fingiam que não notavam. Mas não tinha como. A sala de reuniões ficava empesteada pela sua presença. “Não há muito o que dizer. Ele nos causou um prejuízo de cinco mil. Não temos espaço para incompetentes.” Ninguém contestava o que ele falava para poder estar longe dele o mais rápido possível. Faziam desenhos em folhas em branco para não precisar olhar sua cara. “Comuniquem ele até o fim do dia.” Tudo bem, todos farão o seu melhor para não precisar mais passar por isso. O único ato espontâneo de alguém em sua presença seria sair correndo. Enquanto ele dobra os papéis e coloca na pasta as pessoas já estão se levantando e olhando para a parede. “Eduardo!” Não! Eu não! Hoje não! Nunca não! Seu Alceu sinaliza para o executivo que tentava sair. O resto continua andando focado na parede com um misto de alivio e duvida. Afinal, era o chefe do RH e o ceifador implacável. “Hoje podemos tomar aquele drink que você esta me devendo. Por minha conta.” Não, por favor Deus, não! “Claro. Passo na sua sala no fim do dia.”

A submissão funciona como uma certa auto-censura que transforma o homem num rato condicionado. No resto do dia ele pensou em uma forma de se livrar daquilo. E Eduardo estava dentro do carro dirigindo pela 9 de Julho pensando em ser parado por um blitz e preso por qualquer crime para se livrar daquilo. E ele suava como um porco e fedia azedo. “Um homem merece ter seus prazeres depois de um dia de trabalho.” Você fede seu porco desgraçado! “Com certeza.” Como se fosse um remédio para dor de cabeça, o Seu Alceu tira do bolso uma cápsula com um pó branco e faz duas carreirinhas em cima do manual do carro que ele pegou no porta-luvas. Ele abaixa o nariz para cheirar e a outra carreirinha se dissolve no suor da sua testa. Ele passa a mão na testa, lambe, vira a capa do manual, seca com a manga da camisa em movimento giratórios e estica outra carreirinha. Eduardo cheira. “Vamos naquele hotel novo que abriu perto do aeroporto. O hotel das universitárias.” Puta que pariu! Velho babão de merda!

Os vidros fechados por causa do ar condicionado e o cheiro escatológico girando por todos os centímetros quadrados. O trânsito travado numa terça-feira interminável. O aeroporto parecia estar a anos luz dali. E ele suava como um porco e fedia azedo. “Vamos no velho casarão da Rua Augusta. Vamos demorar horas para chegar até o aeroporto.” “Não, não. Não quero mais ver a Xarlene.” Ela que não quer te ver. Ninguém quer te ver seu fudido de merda! E o impulso de fugir soca a mão na buzina e o pé no acelerador. Por favor! Alguém me mate! “Deixa o rádio na CBN pra eu saber como o mercado esta reagindo a troca de ministros. No fim não vai mudar nada.” Haaaaaaaaa! “Estou achando que o departamento comercial esta acomodado com as metas baixas. Acho que vou pressionar a Dona Marlene por mais contratos.” Foda-se! Foda-se! FO-DA-SE! “Melhor que dinheiro só mais dinheiro.” Chega logo lugar du caralho! “Aquela velha sabe como ganhar dinheiro. Ela até merecia uma boa foda. Quanto tempo será que faz que ela não dá uma trepada animal?” Cala a boca seu cretino bastardo! “Não sei se ela sabe o que é isso. Conheci o marido dela uma vez numa churrascaria. Tem cara de paspalho.” Eu vou te matar! Eu vou te matar! “Chegamos.”

Uma senhora cheia de penduricalhos e com cara colorida de pó de arroz recebe os dois na porta. “Boa noite senhores. Já sabem o que querem?” “Sim. Duas estudantes de engenharia de uma faculdade católica e uma garrafa de whiskey 12 anos.” A senhora faz um gesto e duas garotas, uma loira e outra morena, se aproximam. Seu Alceu junta a morena e senta de um lado da mesa alisando as pernas dela com as duas mãos, tentando agarrar tudo que pode. E ele suava como um porco e fedia azedo. Eduardo senta com a loira do outro lado. O garçom traz a garrafa e entrega uma comanda para cada um dos dois. “É o seguinte. Primeiro você vai comigo, depois com ele. A loira a mesma coisa.” Puta que pariu! Não vou tocar nela depois de você nem a pau! “Pega uma garrafa destas para você porque esta vou levar comigo.” Some da minha frente! Um vai para o quarto da direita e o outro para o quarto da esquerda.

Enquanto Seu Alceu fodia a morena de quatro Eduardo estava se explicando para a loira. “Não dá. Não consigo sabendo que aquele escroto esta fodendo no outro quarto.” Nhéc, nhéc, nhéc. Tum, tum, tum. “Meu Deus! Aquele animal deve estar esfregando aquele suor escroto nela. Como vocês se prestam a isso?” Cinco minutos depois que os barulhos pararam a morena entrou no quarto pelada e acabada carregando as roupas na mão. A loira fez cara de desespero e saiu. A morena entrou no banheiro e ligou o chuveiro. Os barulhos recomeçaram. Nhéc, nhéc, nhéc. Tum, tum, tum. Eduardo virou uma talagada da garrafa, passou sua comanda duas vezes no leitor digital e voltou para o bar. Seu Alceu apareceu carregando o paletó pelo dedo jogado nas costas e com a gravata enrolada no pescoço. E ele suava como um porco e fedia azedo. Os dois entraram no carro e foram embora. “Queria foder assim a Dona Marlene.” Quero muito te dar um soco na cara. Imbecil! Eduardo deixou Seu Alceu no estacionamento do prédio do escritório e foi para casa. Seu Alceu pegou seu carro e foi para a sua.

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