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conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

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Preço de Sangue

Os raios do sol da tarde cortavam o céu sem nuvens e castigavam a árida Durotar, os poucos ventos eram insuportavelmente mornos, trazendo uma sensação de uma grande forja a céu aberto. E as várias criaturas frente aos portões de Orgrimmar realçavam o efeito da fornalha.

No entanto, por mais que o clima fosse absurdamente quente, o que realmente fervia no gigantesco acampamento era o ânimo da variada massa de seres que tentavam entender o motivo de estarem ali e suas implicações. O cerco para por fim a tirania de Garrosh Grito Infernal não envolvia somente a Horda, a famigerada Aliança também estava ali. Mesmo que ir contra o Chefe Guerreiro não criasse grande atrito, pois o orc era muito mal quisto e cultivara muitos inimigos entre seus aliados, conviver e lutar junto com a Aliança era ultrajante, não que as forças não tivessem se unido em outras oportunidades, mas agora era diferente, estavam sitiando a capital de sua facção.

Vozes, não raramente exaltadas, preenchiam o acampamento enquanto uma miríade de montarias voadoras rasgava os céus num turbilhão caótico apresentando em contraste uma harmoniosa dança de sombras sobre o chão vermelho. Em terra, tratadores cuidavam dos animais, algumas tendas foram levantadas, carroças com suprimentos foram colocados na retaguarda enquanto goblins vagavam por cada canto vendendo todo tipo de quinquilharia.

Entre aquela profusão de tabardos e estandartes um arcano apenas observava. Seu manto era de um azul profundo e chispava encantamentos. Sua face era magra e não usava um elmo deixando a pele pouco azulada de sua cabeça desnuda refletir os raios de sol. Ali parado, apoiava-se em seu cajado de poder. Perscrutando o movimento do acampamento reparou que cada raça estava reunida com os seus, não era rara a mistura, mas naquele momento delicado cada um procurava seus irmãos. Nos parcos debates inter-raciais, o mago para seu desgosto, notou também que eram poucos os que procuravam os Renegados. Apesar de pertencerem a Horda, a maior parte da facção apenas os suportava.

Não tão diferente desde que cheguei a Orgrimmar. Renegados… sempre seremos Renegados. Pensou. Relembrou a época em que o grupo comandando por Sylvana Correventos fora aceito na Horda e partira para conhecer a capital da facção. O que deveria ter sido uma experiência gratificante se mostrou um suplício, os moradores da cidade não só o evitavam, mas declaradamente os rejeitavam.   Lembrou de ter visto o porta-voz dos moradores, um tauren chamado Gamon, ir reclamar com o líder Thrall sobre a presença os mortos-vivos na cidade.

Na época ele achou a desconfiança e rejeição algo normal por conta de suas origens, o Flagelo e do Rei Lich não são bons cartões de visita, fora o fedor que seus corpos emanavam. Mas agora, ele se perguntava, não existia sentido para esse comportamento. Não depois das batalhas que travamos em nome da Horda.

Esse distanciamento era o que o incomodava mais naquele momento, não tinha problemas em enfrentar Garrosh, apesar de ser ressentir um pouco em lutar ao lado da Aliança em Orgrimmar. A minha casa é a Cidade Baixa e a minha luta é a da Rainha Banshee.

O Chefe Guerreiro nunca se preocupou em mostrar desprezo pelas outras raças, especialmente os mortos-vivos, ele teria os sacrificado na campanha de Guilnéas se não fosse pelo regresso triunfante de Sylvana com as Val’kyren e tentaria novamente na primeira oportunidade que surgisse. E se o mago conseguisse ignorar os humanos, lutar com a Aliança não seria um problema, não se esse fosse a vontade da Dama Sombria.

O seu sopor meditativo foi interrompido pela chegada de seu amigo Colsc. A aranha que acompanhava o caçador sempre chiava alto quando o via.

– Mais uma vez perdido nos seus pensamentos, Onurb? – brincou o caçador.

O mago olhou para ele e esboçou seu melhor sorriso. O caçador morto-vivo de pele cinza, cabelos longos verdes e mandíbula torta vestia malha rubra e estava acompanhado de um tauren e uma morta-viva.

– Em vez de ficar aqui sozinho com caraminholas na cabeça deveria tentar se distrair – disse o amigo e emendou – Nosso amigo Deurin – apontou para o tauren – Ouviu algumas coisas interessantes.

Os taurens eram mais abertos em relação aos Renegados, foram eles que ajudaram a convencer Thrall a respeito do ingresso do exército de Sylvana na Horda.

Deurin era um xamã, envergava um manto único de malha, assim como as ombreiras, todas em um tom único de verde-musgo, a parte das pernas era protegida com couro deixando o casco duro do tauren livre, carregava um poderoso cetro ornado de patuás e usava um elmo que deixava apenas seu focinho negro e seus chifres do lado de fora.

Ele fez uma breve saudação a Onurb antes de começar a falar – Bem, não mais do que vocês já devem saber. Um número razoável está se perguntando se as ações de Garrosh não são legítimas, principalmente os orcs.

– E quantos desses você acha que se amotinará? – indagou o arcano com interesse.

– Ninguém vai ser louco de fazer isso. – respondeu. – Isso era esperado, somos muitos e com certeza outros tantos pensam de forma diferente, mas pensar não faz mal quando se obedece as ordens, o problema é quem dar essas ordens, se tiver algum líder a favor de Garrosh ou…

A ladina o interrompeu – Besteira, a Dama Sombria é leal a Horda. – Havia muita raiva na entonação. Onurb teve a sensação de ver os olhos opacos de Vusti desaparecerem por um instante naquele rosto sombrio. Tamanha ira fez com que sua roupa de couro marrom friccionasse junto ao corpo de forma anormal fazendo suas adagas presa as costas se chocarem produzindo um baixo tilintar.

O mago reparou que ela morrera jovem, seu cabelo azul batendo aos ombros e pele roxa quase imaculada mostrara uma inocência perdida, mas que por algum motivo ainda resistia bravamente em seu corpo.

Colsc viu o amigo franzindo o cenho para Vusti e pensou que ele possivelmente não estivesse entendendo. – Somos suspeitos, como de costume – explicou – Muitos estão estranhando a ausência de Sylvana nesse impasse. Acham que ela está tramando algo pelas costas da Horda.

Onurb avaliou aquela informação por uns instantes e concluiu que não era tão absurdo a Dama Sombria estar tramando algo, mas não quis estimular esse pensamento nos outros.

– Se a Rainha Banshee estivesse aqui e se empenhado como esse bando de insatisfeitos querem, certamente seria acusada de almejar a liderança da Horda. E estamos aqui, não estamos? Além do mais se alguém quer se apossar do posto maior da Horda esse alguém é Vol’jin, ele que iniciou a rebelião. – ponderou.

– Bem, isso é verdade, mas… – pigarreou, Deurin ficou um pouco sem jeito – Não me entendam mal, eu não penso assim, mas é que a Cidade Baixa está sendo fortificada e isso só corrobora com os boatos.

– Fortificada como Orgrimmar é ou qualquer cidade que não queira ser pega desprevenida em um ataque deva ser – disse a morta-viva Vusti impacientemente. Depois se virou para Onurb e completou com ar de escárnio – Cogitaram até um acordo entre a Aliança e a Dama Sombria para um ataque contra a Horda.

O arcano gargalhou.

– Não pode ser sério, a Aliança nos despreza, não, ela nos teme. Esse raciocínio é ridículo.

Isso trouxe um lampejo de memória. A Aliança, os humanos, um dia ele fora um, mas hoje eles os desprezam, lembrar aqui fez seu corpo queimar de raiva. Eles deveriam entender o que os Renegados passaram, deveriam ser os primeiros a nos receber, mas são eles os nossos principais inimigos.

Sem perceber continuou – Nem se a Aliança quisesse a Rainha aceitaria tal acordo. – apesar do furor em suas palavras, elas fraquejaram, ele não tinha certeza disso.

– Não mesmo. – anuiu o caçador.

– Alguns acreditam que a Aliança não iria aceitar ajudar Vol’jin a depor Garrosh a troco de nada, seria mais interessante eles esperarem a nossa guerra interna nos enfraquecer para nos atacar. – disse o xamã.

– Isso é verdade, o que a Aliança ganha em nos ajudar? – indagou a ladina agora mais calma.

Como ninguém respondeu Onurb tomou a palavra.

– Garrosh é insano, quer apenas o sangue de seus inimigos e hoje ele tem em posse um imenso poder. O líder dos Lançanegra foi esperto, a Horda enfraqueceria muito lutando sozinha, ele trouxe a Aliança para esta guerra, isso equilibra…

Explicava quando um grito monstruoso reverberou de dentro para fora da cidade.

Os quatro se entreolharam apreensivos. A aranha do caçador chiava mais alto do que o costume eriçando as patas em forma ofensiva e Colsc tentou acalmá-la.

– Já está quase na hora. – observou Deurin.

Os outros assentiram.

Para quebrar o clima de apreensão o mago continuou seu raciocínio. – Bem, como eu estava dizendo… – ele conseguiu reter novamente a atenção deles – Vol’jin foi esperto e a Aliança foi encurralada. Eles sabem que se não ajudassem correriam sérios riscos.

– Quais riscos? – indagou Vusti que voltava a ficar impaciente.

– Ora, olhe os cenários possíveis. Horda venceria e teria a chance de tomar o controle do poder que o Chefe Guerreiro conseguiu em Pandária ou Garrosh venceria, bom, com ele vitorioso e a Horda derrotada, quem o seguraria? A Aliança teme esses cenários. Lutando aqui ela tenta garantir a derrota do orc e, por conseguinte, garante que tal poder não chegue as mãos da  Horda – explicou o mago.

– Mas isso não os impede de tramarem algo contra nós. – ponderou o xamã.

– Não, não impede. Mas também não impede a Horda de agir. Os dois lados estão correndo os mesmos riscos. – observou Colsc.

Houve alguns segundos de silêncio antes que o tauren se pronunciasse. – E em relação ao novo Chefe Guerreiro, quem vocês acham que assumirá?

– Essa é óbvia, a revolta é do troll. Ele quer proteger a sua tão amada família Horda. – disse com desdém a ladina.

– E o Thrall? – perguntou Deurin.

– Thrall não quer saber mais da Horda, o melhor exemplo disso é ter deixado a facção nas mãos do lunático do Garrosh. – respondeu o caçador.

– Só se acontecer algo inesperado ou se Vol’jin morrer na empreitada. Decerto que o Lançanegra será o novo líder. –  observou Onurb.

Sylvana seria uma boa líder. Mas é impossível de acontecer. Pensou o mago.

– Decerto… – concordou o tauren respirando profundamente – Bem, a conversa está boa, mas já está para anoitecer, vou voltar ao meu grupo.

Os três mortos-vivos se despediram de Deurin.

– E agora? – perguntou Colsc quando o xamã se foi.

Onurb olhou para o oeste e viu uma grande mancha avermelhada se espalhar pelo céu, o sol estava se pondo e aquela imagem junto com a terra vermelha de Durotar as portas de Orgrimmar o lembrou do que viria a seguir.

Não desviando o olhar do ocaso respondeu – Agora todos nós vamos pagar com sangue a escolha de Thrall.

*****

Essa primeira fanfic que escrevo foi motivada pela discussão envolvendo o patch 5.4 de WoW(leia o post no WoWGirl), queria dar minha opinião e até comecei um post, mas depois achei mais interessante fazer isso em forma de um pequeno conto. Bem, tentei ser didático para que quem não conhece o jogo o compreender o máximo do conto, evoquei na narrativa alguns pontos chaves da história. E lembro que apesar do patch se chamar Cerco a Orgrimmar eu não sei se o tal cerco acontecera dessa forma. Bem, espero que curtam.

p.s: O mago morto-vivo  Onurb(Bruno) é um personagem meu no jogo 🙂

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Carne II – Ossos do Ofício – Final

Escritor: Sombra Posthuman

Ukobach

Ukobach

 

Esta publicação é continuação de Carne I – Esqueletos no Armário e Carne II – Ossos do Ofício – Parte 1 e é recomendada para maiores de 18 anos.

Blood on her skin
Dripping with sin
Do it again
Living Dead Girl
Blood on her skin
Dripping with sin
Do it again
Living Dead Girl

Bem longe dali, Elisa algema os pulsos de Leandro à cabeceira e os pés aos pés da cama.

(more…)

Publicado por Sombra Posthuman em: Agenda | Tags: , , , , , , , , , , , , , , ,
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Carne II – Ossos do Ofício – Parte 1

Imagem de Albert Wesker retirada da página http://www.gaiaonline.com/profiles/chairman-a-wesker/31614599/

Imagem de Albert Wesker retirada da página http://www.gaiaonline.com/profiles/chairman-a-wesker/31614599/

 

Escritor: Sombra Posthuman

Recomendado para maiores de 18 anos.

 

Para ler antes, ou não:

Carne I – Esqueletos no Armário

 

I… I have this need

I need to see you bleed

I need to taste your brain

Oh God, it drives me insane

Come… come over here, my dear

There’s nothing for you to fear

I need a little piece of your head

So you too can be among the living dead…

 

O ritmo da música eletrônica enche o quarto, dividindo o pouco espaço do aposento com sangue e membros decepados. Elisa move seu corpo seguindo o ritmo, enquanto devora um braço que já pertenceu a um homem. O sangue respinga em sua lingerie branca, já cheia de manchas rubras. Ela se delicia com o momento, como se estivesse fazendo sexo. É uma sena grotesca, mas lambuzada de luxúria, porque para Elisa, isso é um orgasmo.

É o quarto de Mauro, que se transformou em uma câmara de horrores.

– Eu tô gostano desta cidade. – Ela diz com o sorriso de uma criança.

O telefone toca, Elisa larga o membro masculino que lhe dá tanto prazer, chupa os dedos e corre para a sala de calcinha e sutiã e suja como uma criança levada. Ela atende o telefone.

– Alou?…

– Olá, meu anjo, vai fazer alguma coisa hoje?

– Nadinha…

– Então eu vou passar pra te pegar mais tarde.

– Tá bom, vou ficar esperano.

– Vou te levar pra um lugar bem legal!

– Ah, é? Estou curiosa…

– É surpresa. Então até mais, gata.

– Até mais…

É noite,… um homem de batina, coturno e um chapéu preto anda pela cidade com ar de quem não sabe bem para onde está indo. Ele usa um grande crucifixo de prata e óculos escuros, e carrega uma maleta preta. Através dos óculos, olha para a TV em uma vitrine, onde está passando “O Corvo”.

– Victms… aren’t we all? – diz Brandon Lee.

– Cidade grande,…vai ser difícil te achar de novo, Lilith.

Ele continua andando, mas um cego, de rosto deformado, bloqueia sua passagem. Ele o empurra sem hesitar na direção da rua.

– Sai da frente, cego inútil!

O homem cai na rua, enquanto um carro vem rápido em sua direção, buzinando desesperadamente. O cego não tem tempo de reagir e permanece caído na escuridão, apenas ouvindo o som da morte se aproximando. Felizmente, o motorista consegue desviar. O homem da batina, no entanto, continua em seu caminho, sem nem mesmo olhar para trás. Ele se aproxima de uma igreja evangélica e ouve muita gritaria lá dentro.

– O fim está chegando, irmãos! Os sinais estão todos aí! É o fim dos tempos!

– Por mil diabos, assim nem consigo ouvir meus pensamentos!

Para diante da igreja e abaixa os óculos. Sua íris é vermelha como fogo e sua pupila é uma fenda vertical, como de gato. Ele olha para dentro da igreja e, sem razão aparente, o altar é coberto de chamas, juntamente com as roupas do pastor.

– Esses crentes são tão irritantes…

Um carro passa pela rua e as pessoas dentro dele nem se dão conta do que está acontecendo. É Leandro quem está dirigindo o carro, e Elisa está na carona.

– Que lugar é esse pra onde ocê vai me levar?

– Calma, meu anjo, isso é só mais tarde. Agora nós vamos beber e dançar um pouco.

Ele para o carro em frente a um lugar sujo e com pouca iluminação, que parece um galpão, com homens mal encarados fumando na frente. Eles entram e são recebidos por uma garota loira que aparenta ter uns 14 anos, com um short minúsculo e um decote bem ousado.

– Oi, Painho! Vai me pagar um drink?

– Não, hoje não, Gabi. Eu tenho companhia.

– Ok. – E sai sem dar a mínima.

– Painho? – repete Elisa com tom de deboche.

Eles se sentam a uma mesa no canto, e logo um homem barbudo com mais ou menos quarenta anos e cheio de ouro chega para cumprimentar Leandro. Neste momento, passa pela mesa uma mulher linda, usando um chapéu de caubói. Um pouco parecida com Elisa. Algo naquela mulher chama a atenção de Elisa de tal modo, que ela não consegue desgrudar o olhar da misteriosa mulher. A morena de chapéu deixa o estabelecimento e, enfim, Elisa sai do transe.

– Elisa, falei com você, meu anjo.

– Ah, sim, descurpe.

– Este aqui é o Pirata, meu parceiro de negócios.

– Muito prazer.

– O prazer é meu. É uma moça muito bonita!

– Muito agradecida.

– Tem notícias do Mauro? – Pergunta para Leandro.

– Não, desapareceu sem deixar rastro. Só deixou isso aqui pra mim. – Olha para Elisa sorrindo e ela sorri de volta sem prestar muita atenção no que ele está dizendo.

– E você acha pouco? Hehehehe

Uma garçonete traz algo para beber e Elisa bebe enquanto pensa na mulher que viu há pouco. Os homens estão conversando, mas ela permanece distante.

Alguns instantes depois, Leandro chama Elisa para dançar. Eles se levantam e começam a dançar ao som de The 69 Eyes – Dead Girls Are Easy.

Enquanto isso, em outra parte da cidade, o homem de batina toca a campainha em uma casa. O cachorro do vizinho não para de latir, o homem o encara por cima dos óculos escuros e o cachorro foge amedrontado. Um cabeludo tatuado abre a porta.

– Um padre? O que você quer aqui?

– Diego Silveira?

– Sou eu, e você quem é?

– Meu nome é Ukobach.

– Eu não acredito em Deus, tá legal?! – e começa a fechar a porta, mas Ukobach a segura.

– Eu quero saber onde está a mulher do baixo.

– Mulher do baixo, não sei do que cê ta falando, véi. Agora dá licença, que eu tô com o fogo ligado. – E força a porta para fechá-la, mas Ukobach chuta a porta com seu pesado coturno, abrindo-a mais e empurrando o homem para trás.

– Tá maluco?

Ukobach pega o homem pelos cabelos e o arrasta até a cozinha.

– Por que não disse logo? Não queremos desperdiçar gás! Eu sou um ótimo cozinheiro, sabia?

Diego grita e se debate, alcançando uma panela e bate na perna de Ukobach, que parece não sentir nada. Há uma chapa de metal fritando lingüiças e cebola em cima do fogão.

– O jantar está servido! – Ukobach empurra o rosto de Diego contra a chapa e ele solta um grito horrível de dor.

– Vou perguntar de novo, onde está a garota?

– Ah, eu não sei, véi, eu juro!

– Resposta errada. – E empurra novamente seu rosto contra a chapa. Depois o joga no chão. – A gente pode ficar aqui a noite toda! Vai ser muito divertido.

– Duas ruas pra trás, prédio verde, primeiro andar. Procura pela Dália, ela sabe da garota.

– Mas que covarde,… entregando uma mulher tão cedo! Eu disse que isso poderia durar a noite toda. Sabe, o padre dono desta batina resistiu mais.

Ele pega uma faca de cortar carne e corta o indicador da mão direita de Diego, que grita novamente.

– Ninguém gosta de dedo-duro!

Ukobach pega o dedo decepado do chão e guarda em sua maleta. Enquanto isso, Diego pega a faca e crava na perna do homem de batina, gritando “Desgraçado!”. Ukobach se vira e quebra o braço de Diego, fratura exposta. Volta à maleta, pega um gancho e vira novamente para Diego:

– Espero que não esteja mentindo.

– Aaaaaah, meu braço!

– Você não faria isso, faria? – Abaixa os óculos, fitando-o de perto com seus olhos demoníacos.

– Ah, meu deus!

– É, acho que não… Então me diga, já que você gosta de falar, qual é o nome da mulher do baixo?

– Eu te digo, mas, pelo amor de deus, me deixa em paz!

– Feito.

– O nome dela é Luana.

– Luana,… então esse é o nome que você está usando… Agora vamos brincar de açougueiro.

– Não! Você disse que ia me deixar em paz!

– Pelo amor de deus eu menti. – e crava o gancho no ventre de Diego.

De volta à boate, Elisa diz para Leandro que quer ir embora.

– Eu quero ver a surpresa que ocê tem pra mim.

– Está bem, então vamos.

Eles voltam para a mesa e Gabi está sentada no colo do Pirata com o seio esquerdo para fora da blusa em sua mão.

– Até mais, gente, a gente já tá indo. – diz Leandro.

– Mas já, tão cedo? Toma mais uma bebida! – responde o Pirata.

– Não, a gente vai continuar a festa em outro lugar. Nos vemos semana que vem.

Eles pegam o carro e Leandro pergunta:

– Quer parar em algum lugar pra comer alguma coisa?

-Não, eu quero ver logo esse lugar que ocê falou.

– Tem certeza? Não está com fome?

– Dá pra aguentar até mais tarde.

– Tá legal.

Eles se afastam da cidade e vão pro meio do nada. Mas, no meio do nada, se encontra uma luxuosa mansão.

– E aí, o que achou?

– Nossa! O que é isso?

– É o esconderijo que o Pirata me arranjou. Os negócios vão indo muito bem.

– Que legal, é demais de grande! Eu quero ver a casa por dentro!

Eles entram e Elisa corre a casa toda. Para de frente para a lareira e diz:

– Aqui é pra jogar os osso das pessoa, né?

– Elisa, você anda vendo filmes de terror demais!

Ela sai correndo, pois outra coisa chamou-lhe a atenção, enquanto Leandro observa a lareira, pensando seriamente numa nova possibilidade. Ouve um som metálico, se vira e vê Elisa segurando uma katana desembainhada, apontada para ele.

– Olha só o que eu achei!

– Muito cuidado com isso, está afiadíssima. E você não vai querer machucar este lindo corpinho, vai? – Coloca a espada de lado e acaricia seu rosto. – Vou te mostrar o nosso quarto.

Um homem de pseudo-moicano anda pela calçada de uma rua deserta com uma camisa camuflada, onde está escrito: “EXÉRCITO DE CRISTO”. Ele caminha, cantando um funk, quando vê folhas de jornal no chão e se inclina para olhar. É uma reportagem sobre o incêndio na igreja.

– Cacete!

Enquanto ele observa, inclinado, um morcego que estava pendurado em uma marquise atrás dele toma forma humana e o agarra por trás. Ele tenta reagir, mas relaxa quando recebe uma mordida no pescoço. O predador é a mulher de chapéu que Elisa viu na boate, mas ela está nua. A presa entra em um estado de êxtase e fica completamente mole, indefesa, enquanto a vampira o puxa para a sombra e suga todo o seu sangue pela jugular. Quando ela parece finalmente saciada, solta o corpo do homem, mas se surpreende ao ouvir uma voz.

– Olá, Lilith. – Um homem, aparentando uns trinta anos, cabelos negros em asa delta, roupas pretas e um crucifixo de madeira pendurado no pescoço, sai de trás de uma banca de jornal. – Venho observando você há um tempo. – Ela fica alerta como um animal ameaçado. – Vampiros realmente existem! – Ela começa a andar em sua direção, olhando em seus olhos. O homem saca uma pistola: – Não se aproxime. – Ela sorri. – Eu vim buscar você, Cabuçu deseja vê-la.

– Cabuçu? Ele está aqui?

– Chegou ontem e quer falar com você, por favor, venha comigo.

Luana se move como um raio e tira a arma da mão do homem, mas ao tentar estrangulá-lo, tem sua mão queimada misteriosamente. Ela geme de dor e salta para trás, segurando a mão, suas presas aparecem e seus olhos ficam vermelhos. Ela fita o homem, com raiva, mas ele não parece amedrontado.

– Eu não quis te ferir. Nem sei o que aconteceu. Tome, vista meu casaco. – Ele joga o casaco para ela.

– Você vai na frente, eu te sigo à distância.

Eles caminham por algum tempo, até que chegam a uma casa humilde. Ele entra e deixa a porta aberta, Luana entra em seguida. Sentado diante de uma mesa com vários livros está o velho deformado que foi empurrado por Ukobach. É um velho índio que usa óculos escuros.

– Senhor Cabuçu, trouxe a vampira, como me pediu.

– Lilian, ocê tá aí?

– O que houve com os seu rosto, Cabuçu?

– Ashur mandou um demônio atrás de mim, ele se chama Anamane. Mas não era meu destino morrer naquele dia. Perdi minha mãe e a visão, e fiquei com o rosto deformado.

– Eu sinto muito. O demônio também veio atrás de mim e eu também perdi uma pessoa querida.

– Você deve ter sofrido muito… Ashur deixou este mundo, e eu me preparei por todos esses anos para me vingar do demônio que levouseu irmão e a minha mãe.

– Você devia fazer como eu, Cabuçu, esquecer de tudo, deixar o passado para trás.

– Às vezes o passado te apunhala pelas costas, Lilian. O demônio está aqui em BH, veio atrás d’ocê novamente. Os espíritos ancestrais me disseram que vários destinos vão se reencontrar nesta cidade e que vida e morte estão nessa encruzilhada.

– Se ele veio me destruir, deixe que venha. Minha existência não possui nenhum propósito. Só o que faço é matar pessoas inocentes quando a fome se torna insuportável.

– O demônio não deve alcançar seu objetivo! Seja ele qual for!

– Eu lamento, Cabuçu, sou grata por você ter me ajudado a fugir de Turmalina, mas não vou ajudar na sua vingança. – Ela se vira e sai.

– Espera! Ele está indo atrás de você! É um demônio!

– Deixe, Ângelo! Ela não vai ajudar. Pelo menos não agora, os espíritos disseram que a mulher de Turmalina iria se unir a nós contra o demônio.

– Talvez ela mude de idéia.

Ukobach está diante de um prédio pequeno e simples, sem porteiro, quatro andares. Enquanto anda em direção à porta do prédio, as plantas do jardim murcham com a sua presença. Ele abre sua maleta e de dentro dela sai uma corrente enferrujada com elos de ganchos, como um enforcador de cachorros. A corrente se ergue no ar como uma serpente e tem várias agulhas na ponta. Essas agulhas entram na fechadura da porta e a abrem. Ele segue pelo corredor e faz o mesmo na porta do apartamento. Anda silenciosamente pela sala escura e é violentamente atingido na cabeça, caindo no chão imediatamente. Ele olha para os óculos quebrados no canto da sala e tenta se levantar, mas é atingido novamente pelo pedaço de madeira segurado por Dalila, uma jovem de moicano, cheia de tatuagens e piercings, usando um baby doll.

De repente, a madeira em sua mão começa a pegar fogo espontaneamente. Ela joga a madeira no chão, assustada. Ukobach se levanta.

– Você é Dalila?

– E você é o Demônio?

– Um deles. Mas não é você que eu quero. Vim lhe perguntar: onde está Luana? – Pega a maleta do chão calmamente.

– Que tipo de demônio é você, que não consegue achar uma garota?

Ele abre a maleta e dela saem quatro correntes, que seguram seus membros e a erguem no ar.

– Eu faço as perguntas aqui.

– Você tá perdendo seu tempo, cara!

– Eu tenho todo o tempo do mundo.

As correntes começam a se enroscar por suas pernas, até suas virilhas e a apertar. Dalila começa a gemer de dor.

– É bem mais divertido quando vocês não cooperam.

Correntes finas com pequenos ganchos se enroscam pelo seu tronco, rasgando sua blusa e sua pele.

– Dá pra perceber que você gosta de furar a própria pele. Acho que você vai adorar a nossa brincadeira!

– O prazer é todo seu!

As correntes finas envolvem e apertam seus seios e novas correntes prendem ganchos em todos os seus piercings: no nariz, nas orelhas, na boca, na língua, nas sobrancelhas, nas bochechas, nos mamilos, no umbigo e na vagina. E começam a puxar bem devagar. Ela geme novamente.

– Vou perguntar novamente: Onde está Luana?

Ela tenta dizer algo, mas as correntes na boca não permitem. Ukobach tira as correntes do lábio inferior e da língua.

– No seu rabo, filho da puta!

As correntes voltam, mas Dalila fecha a boca, impedindo que uma delas pegue o piercing da língua. Elas começam a esticar a pele da garota nos locais dos piercings e ela grita mais alto. Aos poucos, os piercings vão sendo arrancados um a um e Dalila grita de dor. Ukobach observa as gotas de sangue que pingam no chão até que todos os piercings são arrancados. Uma corrente se enrosca na boca de Dalila, impedindo que continue gritando.

– Parece que você perdeu todos os seus piercings. Vamos providenciar novos.

Várias correntes finas com pequenos ganchos na ponta saem de dentro da maleta e cravam em várias partes do corpo de Dalila. As correntes começam a puxar.

– É surpreendente a elasticidade da pele humana, não é?

As correntes vão esticando a pele aos poucos e a tortura continua por um bom tempo, até que a pele começa a arrebentar. E as correntes vão caindo uma a uma. Dalila geme de dor, não pode mais gritar.

– Eu poderia ficar a noite toda nisso, mas tenho outras coisas pra fazer, então vou te dar logo o que você tanto quer!

Ukobach sorri, enquanto uma corrente grossa sai de dentro da maleta. Sua ponta é formada por vários discos empilhados, como uma broca, com pequenos pregos apontados para fora, como uma clava. Cada disco gira em um movimento de rotação oposto ao anterior. A ferramenta faz um barulho infernal. Dalila arregala os olhos.

– Não seja tímida! Eu sei que você está ansiosa pra ter este instrumento dentro de si!

A broca se aproxima de Dalila e ela começa a se debater. Ela entra em seu short pela virilha e penetra entre suas pernas. Continua subindo até o útero, derramando uma grande quantidade de sangue no chão. Depois de algum tempo, a broca sai.

– Dalila, foi um grande prazer brincar com você. Eu me diverti tanto, que resolvi fazer um trato. Pare de resistir e junte-se a mim, eu pouparei sua vida e lhe concederei poderes incríveis. Nada poderá se colocar em nosso caminho. O que me diz?

A corrente que tapava a boca de Dalila é retirada. Seu rosto está machucado por causa dos ganchos de enforcador. Ela cospe sangue e fala com muita dificuldade:

– Vai pro inferno, seu corno! – Ukobach fica desapontado.

– Você primeiro.

A corrente volta para seu lugar e as pequenas poças de sangue do chão começam a se transformar em formigas africanas.

– Essas formigas entrarão pelos seus orifícios e lhe comerão lentamente por dentro. Aproveite cada segundo! Nada pessoal, são ossos do ofício.

As formigas sobem pelas correntes e pelas pernas de Dalila, até entrarem no seu short. Ela geme e se debate desesperada.

– Espero que não se importe se eu me ausentar, já vi esse espetáculo milhares de vezes.

Ele passa pelo corredor do apartamento e vai até o quarto de Dalila. Lá, ele encontra um flyer do show do dia seguinte.

– Já este espetáculo, eu não vou querer perder!

Publicado por Sombra Posthuman em: Agenda | Tags: , , , , , , , , , , , ,

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